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Tcheco é coisa de doido!

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Já seria difícil pelo fato de eu estar aprendendo um novo idioma depois dos 40 anos de idade. Todo mundo sabe que lingua estrangeira é melhor aprender quando criança. Adicione ao fator “velhice” um conjunto gramatical insano, com sete regras malucas, e um novo jeito de definir masculino, feminino e neutro. Meu cérebro está fritando!

Em português, espanhol, francês, etc., as coisas são masculinas ou femininas. Vinho, masculino. Cerveja, feminino. Gato, masculino. Porta, feminino. Em inglês, “it” é tudo que não é humano. Em tcheco, depende.

Se termina em consoante é masculino. Se termina em A ou E é feminino. Se termina em O é neutro. Claro, há milhares de exceções. Mas, basicamente, gato é feminino, vinho é neutro, cerveja é neutro, xícara é masculino, e por aí vai. Depois de uma vida tratando as coisas de forma binária, agora preciso encontrar uma nova maneira de entender gênero.

E masculino, feminino e neutro são a base pra absolutamente tudo no idioma tcheco. Sabe essas sete regras malucas que eu citei acima? Todas estão relacionadas ao gênero e à posição da palavra na frase. Por exemplo:

  • Praga é bonita.
    Praga = Praha. É = je. Bonito = krásny.
    Como Praga é palavra feminina, o adjetivo concorda com o gênero.
    E a frase fica: Praha je krásná.
  • Eu amo a bonita Praga.
    Eu = Je. Amar = Milovat (tem que conjugar o verbo).
    Mas Praga é objeto na frase. Eu sou o sujeito.
    Então fica: Je miluju krásnou Prahu. Sacou? O adjetivo e o nome da cidade mudam porque trata-se de uma palavra feminina e objeto direto.
  • Eu moro na bonita Praga.
    Morar = Bydlet (há que conjugar). Agora, Praga é um lugar.
    A tradução é: Je bydlim v krásnem Praze. Percebeu?

Note que esses exemplos servem apenas pra palavras femininas. Se for masculino “animado” (ser vivo), muda tudo. Tipo:

  • Fabio é bonito. Fabio je hezky.
  • Eu amo Fabio. Miluju Fabia. Viu?

Isso é só uma parte do desafio. Ainda tem as preposições, os advérbios, os verbos irregulares, as exceções, o vocabulário, a pronúncia…

Aí tem gringo que diz: ” Pra que aprender tcheco? Não sabe nem se vai ficar aqui muito tempo!”. Pois eu acho importante. Ainda que nunca fique totalmente fluente, além de ser um momento gostoso no meu dia, é muito bom poder começar a compreender melhor o entorno. Aprender o idioma é um primeiro passo pra se adaptar e se integrar a uma nova cultura.  E tem sido muito divertido!

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Sem saudades da esquerda comunista

Uma ex-chefe minha foi da equipe de comunicação do governo durante a integração das duas Alemanhas depois da queda do Muro de Berlim. Segundo seus relatos, a Alemanha só se tornou o que é porque a parte ocidental teve dinheiro suficiente pra consertar o caos que era o lado oriental.

Na Europa Central e no Leste Europeu não houve essa mesma “sorte”. Os países ficaram à deriva com o fim da União Soviética e tiveram que se reerguer sozinhos. Foram tempos bem difíceis.

Quase trinta anos depois, a República Checa, por exemplo, possui uma economia estável (em 2016 a inflação foi 0,66%), custo de vida baixo e segue atraindo capital estrangeiro. Quase todas as multinacionais têm operações no país, cujo índice de desemprego é de 5,9% (praticamente só exclui as crianças e os idosos).

Eu tenho perguntado pra vários tchecos, de diversos níveis sociais, como eles comparam a era comunista com os tempos atuais. Todos são unânimes em dizer que o Comunismo foi uma das piores coisas que aconteceu ao país. A liderança do Partido Comunista da Checoslováquia enriqueceu às custas de corrupção, do sucateamento dos sistemas públicos, propaganda, cerceamento às liberdades individuais e violência.

É verdade que a população tinha casa, emprego, comida e mesada do governo, mas não havia acesso a coisas de qualidade ou à cultura. “Agora, todo mundo tem que trabalhar e pagar contas, alguns perderam o lugar onde moravam e tiveram que batalhar para conseguir um teto, mas o país está crescendo, as pessoas têm escolhas e existe liberdade”, disse o moço que veio montar o sofá de casa e, logo em seguida, numa quinta-feira, levou a família pra a Áustria pra aproveitar o fim da temporada de ski.

As pessoas mais sênior claramente expressam preconceito contra os russos que migraram para cá. O atual presidente, Miloš Zeman, possui baixa popularidade sobretudo entre os tchecos mais escolarizados e que vivem em centros urbanos como Praga e Brno (49% da população afirma não confiar nele) e isso se deve, também, aos acordos comerciais feitos com a China.

“A gente tem muito medo do mundo como está agora, com Brexit, Trump e Putin. Temos pavor de voltar ao que era. Queremos distância de tudo o que vivemos no passado”, contou uma senhorinha num café.

E pensar que, depois de tudo, ainda tem gente que defende os partidos de esquerda e seus governos populistas na América Latina. Fidel Castro morreu milionário, Lula não sabe quanto ganha, Maduro certamente não fica na fila do leite…Enquanto isso, o pobre é quem paga o pato.