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Eu achando que iria para um bunker…

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A República Tcheca está repleta de sirenes e alarmes que servirão para alertar a população sobre emergências de todo tipo: fogo, bomba, enchente, etc. Para garantir que estarão funcionando no “dia D”, as sirenes são testadas toda primeira quarta-feira de cada mês e tocam ao meio-dia em ponto.

Eu, que vivi em São Paulo, demorei pra entender do que se tratava. Pra mim era só um barulho qualquer. Agora que eu sei pra que serve, sempre me pergunto: o que fazer quando for pra valer?

São dois tipos de sinal. Um General Warning, que toca por 140 segundos e pode soar três vezes seguidas. Geralmente vem acompanhado de um alerta falado, indicando o tipo de emergência e emitido por carros de bombeiro e polícia, rádio e TV.  Depois, tem o Fire Alarm, com 60 segundos de duração.

O Ministério do Interior, em sua página na internet, traz o Guia do Cidadão (também em inglês), com instruções de como agir quando os alertas foram “de verdade”. Eu estava esperando um mapa interativo com a localização de bunkers da Segunda Guerra. Já que é pra “correr”, queria correr pra um lugar exótico. Mas, em vez disso, a orientação é encontrar abrigo em escritórios e residências mesmo, principalmente em salas sem janelas.

O guia explica o que fazer em caso de ataque com armas químicas, armas biológicas, acidente nuclear, enchente, ameaça de bomba, etc. Diz até como preparar a malinha no caso de evacuação. Algumas pessoas dizem que também funciona se alojar nas estações de metrô.

Enfim, no dia em que esse alarme tocar por algum motivo real as pessoas jamais se lembrarão de consultar o site do Ministério. Vai ser pânico geral. E ninguém explica como agir se a comunicação estiver interrompida e o povo não tiver internet, telefone, rádio ou TV. Vamos torcer pelo melhor, sempre, não é mesmo?

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Tcheco é coisa de doido!

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Já seria difícil pelo fato de eu estar aprendendo um novo idioma depois dos 40 anos de idade. Todo mundo sabe que lingua estrangeira é melhor aprender quando criança. Adicione ao fator “velhice” um conjunto gramatical insano, com sete regras malucas, e um novo jeito de definir masculino, feminino e neutro. Meu cérebro está fritando!

Em português, espanhol, francês, etc., as coisas são masculinas ou femininas. Vinho, masculino. Cerveja, feminino. Gato, masculino. Porta, feminino. Em inglês, “it” é tudo que não é humano. Em tcheco, depende.

Se termina em consoante é masculino. Se termina em A ou E é feminino. Se termina em O é neutro. Claro, há milhares de exceções. Mas, basicamente, gato é feminino, vinho é neutro, cerveja é neutro, xícara é masculino, e por aí vai. Depois de uma vida tratando as coisas de forma binária, agora preciso encontrar uma nova maneira de entender gênero.

E masculino, feminino e neutro são a base pra absolutamente tudo no idioma tcheco. Sabe essas sete regras malucas que eu citei acima? Todas estão relacionadas ao gênero e à posição da palavra na frase. Por exemplo:

  • Praga é bonita.
    Praga = Praha. É = je. Bonito = krásny.
    Como Praga é palavra feminina, o adjetivo concorda com o gênero.
    E a frase fica: Praha je krásná.
  • Eu amo a bonita Praga.
    Eu = Je. Amar = Milovat (tem que conjugar o verbo).
    Mas Praga é objeto na frase. Eu sou o sujeito.
    Então fica: Je miluju krásnou Prahu. Sacou? O adjetivo e o nome da cidade mudam porque trata-se de uma palavra feminina e objeto direto.
  • Eu moro na bonita Praga.
    Morar = Bydlet (há que conjugar). Agora, Praga é um lugar.
    A tradução é: Je bydlim v krásnem Praze. Percebeu?

Note que esses exemplos servem apenas pra palavras femininas. Se for masculino “animado” (ser vivo), muda tudo. Tipo:

  • Fabio é bonito. Fabio je hezky.
  • Eu amo Fabio. Miluju Fabia. Viu?

Isso é só uma parte do desafio. Ainda tem as preposições, os advérbios, os verbos irregulares, as exceções, o vocabulário, a pronúncia…

Aí tem gringo que diz: ” Pra que aprender tcheco? Não sabe nem se vai ficar aqui muito tempo!”. Pois eu acho importante. Ainda que nunca fique totalmente fluente, além de ser um momento gostoso no meu dia, é muito bom poder começar a compreender melhor o entorno. Aprender o idioma é um primeiro passo pra se adaptar e se integrar a uma nova cultura.  E tem sido muito divertido!